
Vou falar-lhes hoje do melhor contador de causos que eu conheço: meu querido avô! Ele já tem mais de 70 anos e nasceu nas "brenhas" do Ceará. É um homem incrivelmente sábio, apesar do pouco estudo e ,a cada nova conversa que temos , ele me ensina um pouco mais sobre a vida, através de uma de suas histórias antigas que a minha avó costuma achar que são ultrapassadas.
Desde muito nova eu costumo visitar meus avós maternos em Jaguaribe, uma pequena cidade cheia de um ar nostálgico que remete a minha infância e todas as outras fases que passei na vida até hoje. Eles são o principal motivo das minhas visitas anuais e chego a esquecer do calor e de outras dificuldades de se estar em uma cidade pequena (logo para uma provinciana como eu), quando penso que estou perto deles.
Bem, retomando o meu avô, ele é maravilhoso. Teve uma infância pobre fora de Jaguaribe e viveu boa parte do que um sertanejo humilde pode viver. Comeu farinha com rapadura (alias, come muita farinha até hoje, com tudo), plantou para ter o que comer, montou em jumento, conviveu com cangaceiros, etc. Boa parte do que ele me conta é rodeado de um pouco de “histórias de sertanejo" e não posso acreditar em tudo. Tirando as "inverdades", os causos são bastante esclarecedores e eu me sinto vivendo naquele tempo de tantas dificuldades, até para os mais ricos.
Para um sertanejo não era simples ir de uma cidade a outra, era preciso pegar jumento, pau de arara o que mais fosse necessário. Comer carne era coisa rara e acontecia dependendo das chuvas anuais. O almoço era sempre às 8 horas da manhã e pouco depois vinha o jantar (isso para quem tinha o que comer). Mulheres grávidas eram tratadas como doentes graves e tinham que ficar muitos dias trancadas em casa sem pegar muito vento.
Enfim, depois de passar muitas dificuldades, meu avô pôde finalmente desfrutar de um pouco mais de conforto quando os anos foram passando e o seu tino comercial foi aflorando. Ele montou uma loja e pode criar todos os filhos, que não sofreram tanto com as intempéries de uma vida de privações. Hoje, o que resta daquele tempo são os velhos costumes que nunca morrem e a vontade de contar parte de sua inacreditável vida sertaneja.
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